Foto: Reprodução / Assessoriaa HUSM
Anderson Mazzon, de 25 anos, e a equipe médica do HUSM
O Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) alcançou um marco histórico na medicina regional ao realizar seu primeiro transplante autólogo de medula óssea sem transfusão de sangue. O procedimento inédito foi viabilizado pelo protocolo Patient Blood Management (PBM) – ou Gerenciamento de sangue do paciente –, que prioriza a preservação do sangue do próprio paciente.
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O esforço conjunto entre as equipes de Transplante de Medula Óssea (TMO) e Hemoterapia atendeu ao pedido de Anderson Mazzon, 25 anos. Residente em Rosário do Sul, o jovem é Testemunha de Jeová e solicitou que suas convicções religiosas – que restringem a recepção de hemocomponentes – fossem respeitadas. A transfusão ocorreu no dia 15 de abril deste ano.
A estratégia técnica
No transplante autólogo, as células-tronco do paciente são coletadas e reinfundidas após a quimioterapia, de modo que ele seja o seu próprio doador. Geralmente, o processo exige transfusões de suporte. No caso de Anderson, a equipe reorganizou cada etapa: utilizou medicações específicas para estimular a produção sanguínea e manteve um controle rigoroso para evitar perdas durante o período crítico de aplasia (baixa imunidade).
– Além do preparo técnico, foi fundamental o engajamento do paciente. Esse procedimento reforça o compromisso institucional com o cuidado centrado na individualidade de quem atendemos – destaca a médica Marielli Rosa Sagrilo, responsável pelo transplante.
Do diagnóstico à recuperação
A jornada de Anderson começou com uma tosse persistente aos 23 anos. Após três meses de buscas por respostas no Hospital de Caridade de Rosário do Sul, exames confirmaram o diagnóstico de câncer no sistema linfático. A descoberta o levou ao Centro de Tratamento da Criança e do Adolescente (CTCriac) do Husm para o início do tratamento especializado.
Fiel à religião, Anderson faz parte da comunidade desde a infância, influenciado pelos pais. Com o início do tratamento e a queda da imunidade, foi necessário adaptar a rotina: para evitar aglomerações, passou a acompanhar os encontros religiosos de forma online. Além de lidar com o câncer, a família precisou conciliar o tratamento com suas crenças.

As Testemunhas de Jeová consideram o sangue sagrado e, por convicção bíblica, não aceitam o uso de hemocomponentes – como hemácias, leucócitos, plaquetas e plasma. Em vez disso, a comunidade apoia o Patient Blood Management (PBM).
Diante da complexidade, a família chegou a considerar o tratamento em outros centros, mas encontrou em Santa Maria o suporte necessário.
– O apoio do meu grupo religioso e da equipe médica foi acolhedor. Esse processo me aproximou ainda mais de Jeová – relata o jovem.
Após seis sessões de quimioterapia e 24 dias de internação para a infusão da medula em 2026, Anderson recebeu alta com a doença controlada e já retornou para sua casa, em Rosário do Sul. O procedimento inédito do transplante aconteceu em 15 de abril deste ano.
Direito
A técnica PBM ganha força internacionalmente como uma abordagem baseada em evidências para reduzir riscos transfusionais. Além disso, em setembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o direito de pacientes recusarem transfusões por convicção religiosa, fundamentando a autonomia do paciente no SUS.